
Kênia de Fatima Roriz
Enfermeira
Coren: 245.901-GO
Goiania-GO 06 de Junho de 2011
- INTRODUÇÃO
De acordo com Silveira et al. (2024, p. 6) “a enfermagem é conhecidamente a profissão do cuidado. Entretanto, parte fundamental da profissão é a liderança, estando estes dois conceitos intimamente relacionados na prática do enfermeiro”. A liderança do enfermeiro ultrapassou as competências administrativas e técnicas, assumindo uma dimensão essencialmente psicológica e simbólica, que se manifesta na capacidade de influenciar, motivar e dar significado às práticas coletivas dentro do cuidado em saúde.
“A liderança consiste na influência que um líder exerce sobre um grupo em função da originalidade de suas ideias e por buscar objetivos comuns com esse grupo” (SOBRINHO, et al., 2018, p. 694). Ser enfermeiro líder significa gerenciar conflitos, tomar decisões sob pressão e, acima de tudo, garantir que a equipe mantenha a coesão necessária para a recuperação do paciente.
Segundo Silveira et al. (2024, p. 6) “o senso de responsabilidade do enfermeiro no exercício da liderança foi enfatizado pelos participantes, uma vez que foram considerados pela equipe figuras de segurança e apoio frente às dificuldades encontradas no ambiente hospitalar em meio ao enfrentamento da Covid-19”. A imagem do enfermeiro muitas vezes tem sido limitada à execução técnica da assistência (o cuidado direto ao leito). No entanto, experiências recentes, especialmente evidenciadas durante a crise sanitária, revelaram que o cuidado eficaz é impossível sem uma liderança estratégica.
Os enfermeiros apontaram desafios relacionados à dificuldade de manejo do paciente com Covid-19, clinicamente instável, demandando maior disponibilidade de tecnologias e de profissionais para a garantia da qualidade do cuidado e segurança do paciente. Gerenciar recursos humanos diante do alto número de afastamentos profissionais decorrentes de infecções por Covid-19 representou um grande desafio aos enfermeiros líderes. (SILVEIRA, et al., 2024, p. 7).
Esta pesquisa tem o objetivo de pontuar a importância do enfermeiro-líder nos hospitais, evidenciando como sua atuação influencia a qualidade da assistência ao paciente, a motivação e o desempenho da equipe de enfermagem e multiprofissionais. - A IMPORTÂNCIA DA LIDERANÇA NA EQUIPE DE ENFERMEIROS
A liderança é importante para vários tipos de organização. O preparo do enfermeiro‑líder constitui uma condição essencial para que esse profissional seja capaz de promover mudanças significativas, visando resultados satisfatórios na qualidade da assistência ao paciente. “O enfermeiro deve manter um perfil de líder, buscando compreender e solucionar os problemas encontrados no cotidiano da equipe dentro da unidade, e desempenhando a coordenação, o planejamento, a implementação e avaliação das ações de saúde” (NETTO, BORGES & MARTINS, 2021, p. 211).
“As condições de trabalho têm reflexo na saúde emocional dos trabalhadores da saúde e na sua satisfação profissional” (MARTINS, et al., 2024, p. 2). Torna-se evidente que a proteção da saúde mental da equipe de enfermagem em futuras crises depende de uma reforma nas estruturas físicas e contratuais capazes de assegurar aos profissionais condições dignas de trabalho.
Silveira et al. (2024, p. 6) destacam que “em meio às dificuldades enfrentadas, um papel importante desempenhado pelos líderes foi o de transmitir confiança a sua equipe e participar ativamente dos processos”. A liderança eficaz da enfermagem não se deu de forma remota ou apenas burocrática, mas sim através da liderança colaborativa e participativa, caracterizadas pelo envolvimento ativo da equipe na tomada de decisões, e pela construção coletiva de estratégias de cuidado e gestão.
Tal preparo permite conciliar os objetivos com as necessidades da equipe de enfermagem, fortalecendo a gestão do cuidado e contribuindo para melhores resultados. De acordo com Netto, Borges & Martins (2021, p. 208) “o enfermeiro é visto como profissional ideal para desenvolver o gerenciamento das UBS’s, tendo como responsabilidade colocar em prática ações necessárias à coordenação dos recursos materiais e humanos”.
“Para que o enfermeiro exerça o seu papel de líder, a instituição de saúde deve possuir um modelo de gestão que favoreça o seu exercício”
(SOBRINHO, et al. 2018, p. 694). A liderança do enfermeiro deve ser compreendida como um processo que depende de um modelo de gestão que valorize, capacite e dê suporte a essa função.
Para que o profissional de enfermagem possa atingir êxito no gerenciamento de uma UBS, o mesmo deve cumprir o papel de líder/gestor, visando atributos essenciais, como planejamento, gerenciamento, coordenação, execução e avaliação de diversas situações. (NETTO, BORGES & MARTINS, 2021, p. 208).
Segundo Sobrinho et al. (2018, p. 695) “o enfermeiro, enquanto gerente, precisa estar preparado para assumir o papel de líder, condição básica para obter transformações no trabalho, atingir metas da organização e conciliar o trabalho em equipe”. A consolidação da liderança na enfermagem supera o esforço individual, exigindo condições que incentivem a participação e a autonomia.
“O líder efetivo na prática clínica motiva as pessoas para um objetivo comum que vai ao encontro do objetivo da organização” (LOURENÇO, 2024, p. 45). Tais práticas são indispensáveis para beneficiar relações interpessoais mais efetivas, sucedendo equipes mais comprometidas e melhor comunicação, em que os demais profissionais tenham voz ativa para contribuir significativamente. Dessa forma, promovem elementos fundamentais para o desenvolvimento de um ambiente organizacional propício ao desenvolvimento da liderança clínica e gerencial.
A técnica, embora indispensável, já não é suficiente para garantir a excelência assistencial em ambientes de alta densidade tecnológica. Freire et al. (2019, p. 2038) explicam que “a complexidade e os avanços tecnológicos nas organizações de saúde vêm exigindo cada vez mais profissionais que trabalhem e desenvolvam suas habilidades na área da liderança”. Além disso, já houve a normatização da atuação dos enfermeiros, em que engloba as competências e gerenciamentos. De acordo com o COFEN (2025) “a norma está em consonância com o art. 8º da Lei 7.498/86, que preconiza como competências privativas do enfermeiro a gestão, organização, planejamento, coordenação, execução, avaliação, consultoria, auditoria, cuidados de Enfermagem de alta complexidade técnica e capacidade de tomar decisões imediatas”.
Lideranças mais referidas para o desenvolvimento de um modelo: transformacional, situacional, servidora e autêntica. A liderança transformacional contribui para o bem-estar, qualidade do sono dos trabalhadores, satisfação no trabalho e motivação, discussão coletiva, comunicação efetiva e escuta ativa dos trabalhadores. A liderança servidora proporciona satisfação do trabalho, e a liderança autêntica está relacionada com prevenção de danos à saúde mental dos trabalhadores. (LOURENÇO, 2024, p. 48).
“É fundamental que o líder tenha competências emocionais diversas, e assim conjugá-las nas diversas situações que encontra” (LOURENÇO, 2024, p. 44). Esse entendimento corrobora a definição de que a liderança na enfermagem não é algo fixo, afirmando que é uma prática dinâmica adaptativa que exige que o profissional detenha inteligência emocional para lidar com diversas situações. Os líderes que desempenham o papel com excelência precisam reconhecer e gerir suas próprias emoções e as de sua equipe para construir relações de confiança, enfrentar desafios complexos e promover um ambiente de trabalho saudável e produtivo.
De acordo com Freire et al. (2019, p. 2039) “a liderança é uma competência a ser desenvolvida, na busca pelo conhecimento, nas experiências compartilhadas e no desenvolvimento das inúmeras competências já mencionadas neste estudo”. Entretanto, de acordo com a pesquisa de Siqueira, Dias & Franco (2023), muitos profissionais têm dificuldades em liderar. “Em relação a atuação do enfermeiro líder/gestor de equipe na área hospitalar, observamos que os enfermeiros possuem dificuldades na gestão e liderança com as equipes” (SIQUEIRA, DIAS & FRANCO, 2023, p. 4).
“Os estudos demonstraram que o enfermeiro deve possuir habilidades para alinhar qualidade do cuidado ao mau gerenciamento do sistema de saúde, deficiente em organização, fluxos, superlotação, bem como o despreparo do enfermeiro no exercício da liderança” (FREIRE, et al., 2019, p. 2039). Pode-se afirmar que a liderança do enfermeiro precisa ir além da atuação técnica e cotidiana, atuando em um contexto no qual o profissional se vê pressionado a corrigir falhas e lacunas do sistema para garantir que os pacientes não sejam prejudicados.
Segundo Siqueira, Dias & Franco (2023, p. 5) “o enfermeiro precisa compreender a liderança e gestão para desenvolver suas habilidades de comunicação, tomada de decisões e o relacionamento interpessoal, além da competência clínica”. Isso reforça que o enfermeiro-líder desempenha um
papel estratégico na coordenação dos cuidados, na articulação de processos e na mobilização de recursos e pessoas em ambientes de saúde complexos e desafiadores.
“O estudo aponta que os modelos de gestão do cuidado, são construídos com a participação de gestores e comunidade, com a análise e qualificação de suas práticas” (SIQUEIRA, DIAS & FRANCO, 2023, p. 5). Essa visão é fundamental para promover melhores ações relacionadas à saúde. O líder precisa compreender ativamente as situações para desenvolver uma liderança que visa proporcionar a diferença em seu local de trabalho. Dessa forma, a satisfação entre as equipes serão mais ativas, os procedimentos realizados nos pacientes mais seguros, além de obter reconhecimento mediante a importância da liderança do enfermeiro. - O PAPEL DO ENFERMEIRO NA EQUIPE MULTIPROFISSIONAL
“No espaço assistencial, principalmente no hospitalar, é o enfermeiro que articula diferentes serviços, realizando a coordenação do cuidado, desempenhando um papel silencioso no cotidiano de trabalho, visando garantir os insumos necessários ao cuidado” (SOBRINHO, et al., 2018, p. 701). A liderança do enfermeiro no ambiente hospitalar se manifesta principalmente na vigilância constante sobre a efetividade do cuidado.
De acordo com a pesquisa de Nunes & Gaspar (2016, p. 6) “os resultados poderão indiciar que o enfermeiro-líder, na sua relação com o paciente, consegue transmitir de forma consistente, sentimentos de confiança e segurança que deposita na equipa que lidera, conseguindo influenciar positivamente a satisfação dos pacientes”. A qualidade da interação estabelecida pelo enfermeiro-líder adquire relevância direta na experiência subjetiva do paciente e interações satisfatórias com a equipe.
“A literatura indica que o enfermeiro precisa estar capacitado a exercer atividades de liderança, para as quais é necessária a autoconfiança respaldada no conhecimento científico para que este possa conduzir o atendimento do paciente com segurança” (SOBRINHO, et al. 2018, p. 703). O treinamento
deste profissional é imprescindível para o alcance do resultado esperado. “O perfil do enfermeiro líder no serviço de urgência e emergência segue um modelo normativo de planejamento, capaz de lidar com a grande diversidade de situações, além de estar apto para resolver problemas e propor mudanças, apontando soluções” (FREIRE, et al., 2019, p. 2031).
Segundo Sobrinho et al. (2018, p. 701) “a liderança é algo fundamental para o trabalho do enfermeiro e se manifesta na sua habilidade de influenciar sua equipe, de forma que juntos possam alcançar objetivos compartilhados, tendo como finalidade central o atendimento das necessidades de saúde dos pacientes e suas famílias”.
A liderança do enfermeiro ocorre a partir de sua capacidade de influenciar as pessoas e saber aglutiná-las em torno de um objetivo comum. Assim, sempre que o enfermeiro coordenar/dirigir uma situação específica, influenciar o outro a tomar certas atitudes, estará liderando. (SOBRINHO, et al., 2018, p. 701).
“A evolução da saúde pública no Brasil é uma certeza, onde conta com mais de 39 mil equipes multidisciplinares de saúde com atuação por todo território nacional” (NETTO, BORGES & MARTINS, 2021, p. 208). A junção das equipes multidisciplinares de saúde representa um dos pilares importantes para melhores resultados aos pacientes, ao proporcionar cuidado contínuo, além de promover estratégias que visam garantir atendimento mais eficaz.
Siqueira, Dias & Franco (2023, p. 6) explicam que “o enfermeiro na gestão contribui para um atendimento de qualidade e com segurança ao paciente, coordenando a instituição e apoiando a educação permanente de seus funcionários, assim possibilitando um ambiente de trabalho seguro e adequado para sua equipe e pacientes”.
“O enfermeiro exerce um papel de extrema importância na ESF, pois o mesmo é o responsável por gerir toda a estrutura da unidade e realizar a liderança diante da equipe multidisciplinar” (NETTO, BORGES & MARTINS, 2021, p. 215).
Quando se avalia aspectos da liderança na enfermagem, os estudos apontam que o enfermeiro aparece como principal objeto de estudo quanto a esta temática. Todavia, outros atores precisam ser observados, pois a liderança dos enfermeiros numa unidade hospitalar acaba por causar reflexos também entre os demais membros da equipe de enfermagem, bem como os profissionais multidisciplinares. (SOBRINHO, et al. 2018, p. 698).
Outros autores afirmam a citação acima, evidenciando o papel fundamental do enfermeiro diante de uma equipe. “Por toda via, o enfermeiro é considerado o melhor profissional qualificado e direcionado para exercer os cargos gerenciais na área da saúde” (SIQUEIRA, DIAS e FRANCO, 2023, p. 6). - CONCLUSÃO
Com base na pesquisa apresentada, a liderança do enfermeiro tem um papel importante para assumir estratégias que possam promover a qualidade no atendimento e a satisfação da equipe. De acordo com os estudos apresentados, existem maneiras diferentes de liderar, adotando o procedimento que melhor se encaixe com a equipe e situação encontrada no ambiente de trabalho. É importante que o líder conheça as particularidades de sua equipe e dos pacientes para que possa traçar estratégias eficazes para fortalecer as relações entre profissionais e garantir segurança no tratamento dos indivíduos necessitados.
A pesquisa apresenta algumas limitações que merecem ser destacadas, como a dependência exclusiva de estudos secundários e literatura publicada, sendo necessário estudos mais atualizados e quantitativos que proporcionem qualidades nos resultados de pesquisa para trazer evidências mais precisas sobre o assunto.
Esta pesquisa amplia a compreensão do papel estratégico da liderança na enfermagem e evidencia a necessidade de avanços metodológicos. Dessa forma, reforça a diversidade de evidências para fortalecer a base científica sobre esse tema de relevância para a prática profissional do enfermeiro líder.
Goiania-GO 06/06/2011
REFERÊNCIAS
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