Sociedade Acadêmica Brasileira de Artigos Científicos - Logo

Sociedade Acadêmica Brasileira de Artigos Científicos

CIRURGIA E PESQUISA EXPERIMENTAL

AVANÇOS TÉCNICOS DA CIRURGIA E PESQUISA EXPERIMENTAL E SEUS IMPACTOS NO SETOR DA SAÚDE.

.

Dr. Kevin Jorge Guzman Aguilar
Cirurgião Plastico
.

Bacharel em Medicina pela Pontifícia Universidade Católica – PUC
Mestre Profissional em Cirurgia e Pesquisa Experimental Strictu Sensu.

RESUMO-  O artigo apresenta a importância do papel da cirurgia e pesquisa experimental, mediante ao avanço da medicina. Proporcionando assim, um desenvolvimento de equipamentos e técnicas a serem aplicadas pelos profissionais. O objetivo da pesquisa visa apresentar os aspectos fundamentais na pesquisa experimental, além dos desafios interligados.

PALAVRAS-CHAVE: Cirurgia. Pesquisa Experimental. Inovação Cirúrgica.

ABSTRACT– The article presents the important role of surgery and experimental research in the advancement of medicine. Thus providing the development of equipment and techniques to be applied by professionals. The objective of the research aims to present the fundamental aspects in experimental research, in addition to the interconnected challenges.

KEYWORDS: Surgery. Experimental Research. Surgical Innovation.


      INTRODUÇÃO

Segundo Yamaki (2014) a Cirurgia Experimental consiste numa ciência básica, representando a renovação do conhecimento, que se propõe a estudar desde os processos bioquímicos e imunológicos, até a adequação de técnicas cirúrgicas e testes com novos fármacos, antes de serem utilizados em seres humanos. A pesquisa experimental é realizada através da base em tentativa e erro, traçando algumas variáveis para tabular o estudo que deve ser registrado para a apresentação dos resultados.

Modelos experimentais em pesquisa podem ser definidos como a materialização de uma parte da realidade, por meio da representação simples de uma ocorrência recente ou antiga (FERREIRA, 2005). A pesquisa experimental tem o principal objetivo de investigar hipóteses mediante a concepção de quem está pesquisando. Esse tipo de pesquisa abrange várias observações em determinados grupos e manipulação de variáveis, com o propósito de ter controle na situação encontrada.

De acordo com Ferreira (2005) o desenvolvimento de modelos experimentais torna-se importante na medida em que estes auxiliam na compreensão dos fenômenos naturais. Se a elaboração do experimento ocorrer de modo correto, é possível produzir conclusões correspondentes à causa-efeito. A pesquisa experimental é um dos pilares da ciência, possibilitando a validação de hipóteses e o atingimento de resultados que podem ser reproduzidos.

Ferreira (2005) discorre também que na ciência médica permitem o melhor conhecimento da fisiologia, da etiopatogenia das doenças, da ação de medicamentos ou dos efeitos das intervenções cirúrgicas. Portanto, os dados coletados são utilizados para rejeitar ou não a hipótese, considerando alguns riscos.

A pesquisa experimental tende a dizer de que modo ou porque as causas de determinado fenômeno são produzidas a partir do teste. Em pesquisas clínico-cirúrgicas os modelos experimentais mais utilizados são as culturas de células e tecidos (pesquisa in vitro), os animais de laboratório (pesquisa in vivo) e os estudos anatômicos, geralmente em cadáveres de seres humanos (FERREIRA, 2005).

.

IMPORTÂNCIA DA CIRURGIA E PESQUISA EXPERIMENTAL

Segundo Medeiros (2016) o interesse pela pesquisa cirúrgica tem sido um fator decisivo nos avanços cirúrgicos observados ao longo do tempo, uma vez que representa a chave para o progresso das ciências cirúrgicas.

A cirurgia experimental tem um papel imprescindível para o desenvolvimento da medicina moderna, por proporcionar novas abordagens terapêuticas a serem testadas antes da aplicação nos pacientes. Além de assegurar a prevenção de alguns sintomas pós-operatórios, trazendo cuidados necessários para minimizar os possíveis riscos ao paciente. A introdução de novos procedimentos visa atenuar as complicações, ampliando as possibilidades terapêuticas. Essa pesquisa pode ser realizada em modelos divergentes como o modelo in vitro, experimento em animais, ensaios clínicos, cadáveres humanos e simulação computacional. A pesquisa experimental possui alguns princípios essenciais, como a possibilidade de outros pesquisadores replicarem os experimentos, validade interna e externa, a distribuição aleatória dos participantes, propiciando a maior confiabilidade nos dados e variáveis independentes que são manipuladas no tempo em que as demais são mantidas constantes, possuindo total controle de variáveis. A pesquisa pode ser considerada a força que impulsiona os inovadores e descobridores que querem avançar na compreensão da doença no mundo cirúrgico (TOLEDO, 2009).

Portanto, Medeiros (2016) ressalta que o laboratório de cirurgia experimental continua sendo importante e até indispensável nas faculdades de medicina, peça fundamental na evolução da cirurgia (desde os tempos de Claude Bernard, Alfred Blalock e muitos outros), tanto para testar novas técnicas cirúrgicas, novos materiais e medicamentos, quanto para o treinamento e aprendizado cirúrgico. A pesquisa experimental concede a testagem e o refinamento de procedimentos, atenuando os riscos que os pacientes poderiam ter após o procedimento cirúrgico.

Com esse avanço, as técnicas desenvolvidas têm sido minimamente invasivas. Essas pesquisas, têm propiciado avanços na robótica cirúrgica e aprimoramento de materiais utilizados. Medeiros (2016) relata que é grande a velocidade com que surgem novos procedimentos, equipamentos e materiais biocompatíveis para uso potencial na cirurgia.

Além disso, a evolução da cirurgia experimental está conectada com os avanços tecnológicos, por exemplo, o uso de tecnologia para aprimorar a visualização intraoperatória. Segundo Silva et al. (2024) a realidade aumentada (RA) tem emergido como uma ferramenta inovadora no diagnóstico clínico, oferecendo precisão e eficiência aprimoradas na prática médica.

Santana et al. (2020) explica que a realidade aumentada (R.A.) é um sistema resultante da evolução da chamada Realidade Virtual (R.V.), e permite a sobreposição de objetos e ambientes virtuais com o ambiente físico, através de algum dispositivo tecnológico.

A aplicação da RA na medicina abrange uma ampla gama de áreas, incluindo a visualização de estruturas anatômicas, a orientação de procedimentos cirúrgicos e a educação médica (SILVA et al. 2024). Com isso, a pesquisa experimental em cirurgia possui resultância em questões de segurança e eficácia dos procedimentos clínicos.

Como a tecnologia continua a permear em todos os aspectos de nossas vidas, a utilização da R.A. na área da saúde vem sendo alvo de pesquisas nos últimos anos (SANTANA et al. 2020). Isso proporciona melhores resultados nas pesquisas, incluindo também o lado benéfico mediante aos custos.

Silva et al. (2024) relata que a RA pode ser utilizada para planejar cirurgias, permitindo que os médicos visualizem e pratiquem os procedimentos antes de realizá-los em pacientes reais, o que pode reduzir o risco de complicações e melhorar os resultados cirúrgicos.

Por meio da pesquisa de Santana et al. (2020), os autores explicam que a capacidade de trabalhar em sintonia com um computador amplia os horizontes  do que é possível na cirurgia, pois a R.A. pode alterar a realidade que experimentamos de várias maneiras. Suas características de visualização 3D e de interação em tempo real permitem a realização de aplicações médicas inovadoras, que antes não podiam ser realizadas.

A realidade aumentada, por sua vez, mostrou-se útil na anestesiologia e na prática cirúrgica, aumentando a precisão e a segurança   dos   procedimentos (SILVA et al. 2024). Através da pesquisa realizada, Santana et al. (2020) apresenta que a sua pesquisa reforça que a R.A. é uma ferramenta de grande importância no ensino e  formação de alunos e profissionais da área médica, pois permite a realização de mecanismos inovadores e aplicação de procedimentos com técnicas mais eficientes, além da minimização de erros. A transição da pesquisa para a cirurgia requer o consentimento dos pacientes, é dever do profissional explicar os riscos e benefícios que o procedimento pode causar; avaliação por órgãos reguladores; minimização do sofrimento dos animais e transparência na publicação referente a pesquisa científica, assentindo que outros pesquisadores possam replicar.

Consequentemente, a pesquisa cirúrgica enfrenta desafios éticos e metodológicos que precisam ser cuidadosamente considerados.

.

OS DESAFIOS DA PESQUISA EXPERIMENTAL

A pesquisa experimental é imprescindível em diversos quesitos para o procedimento cirúrgico. Entretanto, há grandes desafios que devem ser destacados, por exemplo, a utilização de animais. O uso de animais de laboratórios na pesquisa científica é um dilema que tem causado alguns dos maiores conflitos em todo debate sobre bioética (MEDEIROS, 2016).

Segundo Campbell (2023) a utilização de biomodelos em ensaios biomédicos, também denominada de experimentação animal, é uma atividade de alta responsabilidade e profundo valor ético. Em 10 de outubro de 2008 foi aprovada uma lei que seria um marco legislativo para a criação e utilização de animais no ensino e na pesquisa, a lei Arouca (BRASIL, 2008). Um dos desafios atuais que têm se tornado uma pauta relevante, é o uso de animais para as pesquisas experimentais.

É evidente que a experimentação animal se apresenta como uma atividade de elevado comprometimento e com demasiado valor ético, justamente, devido à ainda necessária utilização dos animais nas pesquisas (CAMPBELL, 2023). Sabe-se que muitos experimentos são realizados com animais, independentemente se tal pesquisa promove algum tipo de sofrimento. Portanto, os experimentos recentes devem garantir o uso ético de modelos animais, procedendo sofrimento mínimo ao animal.

Por mais que esse tipo de pesquisa tenha contribuído nos avanços tecnológicos, os animais submetidos tiveram alteração no quesito comportamental. A Lei Arouca revogou a lei nº6638/79, a qual também determinava normas para a prática de vivissecção animal no ensino e na pesquisa, porém diferentemente da lei Arouca essa lei não permitia a realização da vivissecção de animais em estabelecimentos de ensino de primeiro e segundo graus assim como em locais frequentados por menores (ALBUQUERQUE e RODRIGUES, 2014).

O princípio da experimentação ética com animais, conhecido como princípio dos três “R”, propõe reduction do número de animais utilizados em cada experimento, refinement de técnicas experimentais, a fim de evitar dor e sofrimento desnecessários e replacement, substituição por métodos alternativos, sempre que possível (MEDEIROS, 2016). A maneira de atenuar o índice do uso de animais em experimentos é a substituição através de métodos alternativos.

Essa alternativa não visa apenas a não utilização do animal, mas contribui significativamente com a redução dos gastos. Segundo Schatzer et al. (2021) os esforços para a descoberta de modelos alternativos que pudessem substituir o uso de animais fizeram com que muitos pesquisadores estudassem novos protocolos e métodos.

Nesse contexto, os pesquisadores devem, antes de pensar na necessidade real de um modelo biológico com animais, assegurarem-se da relevância do estudo antes de decidir propor um projeto envolvendo animais (MEDEIROS, 2016).

Entretanto, esse método é limitado. Infelizmente nem toda pesquisa científica consegue substituir por completo o uso de animais (SCHATZER et al. 2021).

Outro desafio a ser enfrentado é a transparência referente aos dados estabelecidos pela pesquisa. A transparência deve ser crucial através da publicação de resultados, proporcionando a confiabilidade dos dados. A falta de reprodutibilidade não está restrita apenas à área biomédica, mas atinge todas as áreas, inclusive as que geram dados de pesquisa (LEEK & PENG, 2015).

A transparência e a reprodutibilidade são princípios essenciais na pesquisa experimental, viabilizando a confiabilidade dos resultados alcançados, além de proporcionar avanço no fundamento científico. Ferrari (2023) relata que a falta de rigor científico, problemas no desenho metodológico e reprodutibilidade das investigações científicas compromete as descobertas e inovações biomédicas e de saúde.

Estudos irreprodutíveis ou mal documentados são capazes de prejudicar o progresso do conhecimento e causar desperdício de recursos. De acordo com Weissgerber et al. (2016) há cerca de cinco etapas que podem comprometer a reprodutibilidade dos estudos biomédicos, sendo elas: Problemas no desenho ou planejamento da investigação científica; Descrição inadequada, geralmente escassa ou contendo equívocos, dos métodos; Descrição inadequada de resultados; Erros na análise estatística; Forma de apresentação equivocada dos dados. Vasconcellos (2019) declara que a baixa reprodutibilidade também é historicamente associada à má conduta científica.

Desse modo, a transparência propicia que os cientistas alcancem resultados semelhantes e positivos. Segundo Ferrari (2023) os problemas de reprodutibilidade das pesquisas biomédicas apresentam, ao menos em parte, relações com má conduta científica, uma vez que a última pode representar dados, figuras e resultados alterados, fraudulentos e incorretos. Portanto, a transparência na pesquisa permite que outros pesquisadores avaliem e repliquem os resultados.

.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pesquisa experimental é imprescindível para coletar dados das hipóteses do pesquisador, contribuindo com o avanço na área da saúde. Esse tipo de pesquisa proporciona inovações nesse meio, trazendo benefícios ao profissional e, principalmente, para o paciente que terá um melhor pós-operatório.

Entretanto, foi perceptível os princípios éticos relacionados à transparência e reprodutibilidade que é uma outra pauta a ser considerada mediante ao que vários pesquisadores têm enfrentado. A falta de transparência e reprodutibilidade prejudica toda confiança pública na pesquisa, interferindo na credibilidade.

 Além disso, o uso de animais no experimento. Sabendo que muitas pesquisas envolvem a utilização de animais, muitos pesquisadores têm recorrido a métodos alternativos. Vale ressaltar, que devido a limitação dos métodos alternativos, não é possível substituir por completo a utilização de animais nas pesquisas experimentais. Portanto, o futuro da pesquisa experimental será de acordo com as novas tecnologias, propiciando uma abordagem ética.

.

Tese de Mestrado Strictu Sensu.
Publicada e Aprovada em 15 de Janeiro de 2025.

Dr. Kevin Jorge Guzman Aguilar
Cirurgião Plastico.
Mestre Profissional em Cirurgia e Pesquisa Experimental Strictu Sensu.

.

REFERÊNCIAS

ALBUQUERQUE, L.; RODRIGUES, T. B. UNIÃO EUROPEIA: FIM DA EXPERIMENTAÇÃO ANIMAL? Revista Brasileira de Direito Animal, v. 10, n. 18, 2015.

BRASIL. Presidência da República. Lei nº 11.794, de 8 de outubro de 2008. Regulamenta o inciso VII do parágrafo 1º do artigo 225 da Constituição Federal, estabelecendo procedimentos para o uso científico de animais; revoga a Lei nº 6.638, de 8 de maio de 1979; e dá outras providências. [Internet]. Diário Oficial da União. 2008.

CAMPBELL, D. C. P. CONCEITOS GERAIS EM CIÊNCIA EM ANIMAIS DE LABORATÓRIO E FINALIZAÇÃO HUMANITÁRIA. Editora chefe Profª Drª Antonella Carvalho de Oliveira Editora executiva Natalia Oliveira Assistente editorial, p. 1, 2023.

FERRARI, C. K. B. REFLEXÕES EDUCATIVAS SOBRE A CRISE DE REPRODUTIBILIDADE DAS PESQUISAS BIOMÉDICAS. REVISTA ELETRÔNICA LEOPOLDIANUM, v. 49, n. 138, p. 14-14, 2023.

FERREIRA, L. M.; HOCHMAN, B.; BARBOSA, M. V. J. Modelos experimentais em pesquisa. Acta Cirúrgica Brasileira, v. 20, p. 28-34, 2005.

LEEK,  J. T.; PENG,  R. D.  Opinion:  reproducible  research  can  still  be  wrong:  adopting  a  prevention  approach. Proceedings  of  the  National  Academy  of  Sciences  USA,  v.112,  n.6,  p.1645-1646,  2015.

MEDEIROS, A. C. Pesquisa em cirurgia. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, v. 43, p. 407-409, 2016.

SANTANA, J. R. et al. O uso da realidade aumentada na educação médico-cirúrgica. Brazilian Journal of Development, v. 6, n. 6, p. 35497-35511, 2020.

SCHATZER, F. et al. Modelos biológicos alternativos na experimentação animal. CATALOGAÇÃO NA FONTE SISTEMA DE BIBLIOTECAS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO ABC, p. 31. 2021.

SILVA, A. J. B. et al. Avanços no Diagnóstico Clínico: O Uso da Realidade Aumentada Como Ferramenta de Precisão na Medicina. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, v. 6, n. 8, p. 4971-4981, 2024.

TOLEDO, P. L. H. Importance of medical and surgical research. J Invest Surg. 2009;22(5):325-6.

VASCONCELLOS, M. A “CRISE DE REPRODUTIBILIDADE” COMO AGENTE DE MUDANÇA DO PARADIGMA DA PESQUISA PRÉ-CLÍNICA. Revista da Faculdade de Medicina de Teresópolis, v. 3, n. 2, 2019.

WEISSGERBER,  T. L.,  GAROVIC,  V. D.,  WINHAM,  S. J.,  MILIC,  N. M.,  PRAGER,  E. M. Transparent  reporting  for  reproducible  science.  J  Neurosci  Res,  v.94,  n.10,  p.859-864,  2016.  doi:  https://doi.org/10.1002/jnr.23785.

YAMAKI, V. N. et al. A cirurgia experimental e sua relação com a universidade: relato de experiência. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, v. 41, p. 378-380, 2014.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pesquisar artigos